Cidades do litoral catarinense correm para adaptar orlas à ressaca fora de época
As ondulações de maio derrubaram muros, comeram calçadas e mudaram a conversa nas prefeituras: a pergunta deixou de ser "se" e passou a ser "quando de novo".
Na avenida beira-mar de Barra Velha, o mar deixou um recado em maio: levou embora doze metros de calçada, um quiosque e a paciência dos moradores. Dois meses depois, a prefeitura corre para licitar a recomposição da orla — desta vez, dizem os engenheiros, com projeto pensado para a próxima ressaca, e não para a última.
A cena se repete, com variações, ao longo da costa catarinense. Balneário Camboriú revisa o desenho dos acessos à praia reconstruída na engorda de areia. Itapema discute gabarito de muros de contenção. Florianópolis mapeia pontos críticos da orla insular, de Canasvieiras à Armação, onde o mar já bateu na porta de restaurantes duas vezes em três anos.
O gatilho foi a sequência de ondulações de maio — fora da época tradicional de ressacas, que no Sul costuma se concentrar entre o fim do outono e o inverno. Ondas de mais de três metros combinadas com maré alta de sizígia produziram o que os oceanógrafos chamam de "evento composto": não foi a onda mais alta da história, nem a maré mais alta, mas a soma das duas na hora errada.
O que as prefeituras estão fazendo
O levantamento da reportagem junto a seis municípios do litoral centro-norte encontrou três tipos de resposta em andamento. A primeira é emergencial: recompor o que o mar levou, geralmente com enrocamento — a muralha de pedras que virou paisagem padrão da costa. A segunda é preventiva: revisar planos de contingência da Defesa Civil, com sirenes, rotas de interdição e protocolos para os quiosques da orla. A terceira, mais lenta e mais cara, é estrutural: repensar o desenho da própria orla.
"Pedra resolve o ponto onde você a coloca e transfere o problema para a praia do vizinho. Adaptação de verdade começa quando a cidade aceita que a linha de costa se move."
A avaliação é de uma engenheira costeira que assessora dois dos municípios consultados e pediu para não ser identificada porque os projetos estão em fase de licitação. Segundo ela, soluções chamadas "baseadas na natureza" — recomposição de dunas, vegetação de restinga, faixas de amortecimento — ainda enfrentam resistência "porque não parecem obra", embora custem menos e durem mais.
Quem paga a conta
O dinheiro, como sempre, é o nó. Obra de contenção séria custa dezenas de milhões; orçamento municipal de cidade pequena não fecha essa conta sem ajuda estadual ou federal. A saída tem sido dividir os projetos em etapas e disputar linhas de financiamento de adaptação climática — uma fila que cresce mais rápido do que o caixa.
Enquanto isso, o setor privado se antecipa. Condomínios de frente para o mar em Itapema e Porto Belo contrataram por conta própria estudos de risco e reforço de fundações. Um síndico resumiu a lógica: "Não dá para esperar o poder público quando a onda bate na garagem."
A régua mudou
Entre técnicos, uma expressão se repete: a régua mudou. O nível médio do mar sobe devagar, mas as ressacas ficam mais frequentes e menos pontuais no calendário. O que era evento de dez em dez anos virou evento de dois em dois. Projetar a orla para o mar de ontem, dizem, é a forma mais cara de economizar.
Na calçada refeita às pressas de Barra Velha, um pescador aposentado observava as máquinas trabalharem e ofereceu à reportagem o resumo mais honesto desta matéria: "O mar não avisa duas vezes. Avisa uma — e a segunda ele cobra."
Atualização (21/07): Balneário Camboriú informou que o edital de revisão dos acessos à orla será publicado em agosto. A informação foi incluída no texto.