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Pesca & Mar

Safra da tainha começa com estoques em alta e frota dividida

A ciência diz que o cardume se recuperou. O setor comemora, mas briga — como sempre — sobre quem tem direito a quanto.

Por Heitor Salles, colunista de Pesca & Mar Publicado em 15 de maio de 2026

Maio chegou e, com ele, o rito que organiza o calendário de meio litoral: a safra da tainha. Em Laguna, os botos já trabalham em parceria com os pescadores de tarrafa, como fazem há mais de um século. Nos ranchos de Garopaba e Imbituba, as canoas de arrasto de praia estão na areia, remendadas e benzidas. E nos cais de Itajaí e Navegantes, a frota industrial de cerco calcula quantas viagens cabem na cota.

A novidade deste ano é boa, para variar. Os relatórios de avaliação de estoque apontam recuperação consistente do cardume que sobe do Rio Grande do Sul — resultado, dizem os biólogos, de anos seguidos de defeso respeitado e cotas apertadas. Peixe tem. A briga, agora, é sobre quem pesca.

A conta que não fecha para todos

A cota nacional foi dividida, como nos anos anteriores, entre a frota industrial de cerco e a pesca artesanal, com reserva para o arrasto de praia. No papel, todo mundo recebeu mais que no ano passado. Na prática, cada lado acha que o outro levou demais.

Os armadores industriais argumentam com números de empregos e capacidade de processamento: sem escala, dizem, a tainha catarinense perde mercado para o peixe importado. As colônias artesanais respondem com outro argumento, mais antigo que qualquer planilha — a tainha é cultura, é a renda do inverno, é o que segura as famílias nos ranchos quando o turismo vai embora.

"Cota é igual rede: por mais que estique, nunca cobre todo mundo. O segredo é não rasgar."

Ouvi essa de seu Nelson, oitenta e um anos, quarenta e três safras nas costas, enquanto ele consertava tarrafa na beira da barra de Laguna. Difícil resumir melhor.

O que muda na prática

Para quem acompanha do mercado ou da mesa, a temporada promete preço mais comportado que o do ano passado, quando a tainha chegou a dobrar de valor entre a praia e a peixaria. Com estoque em alta e cota maior, a oferta deve segurar os exageros — ao menos até o fim de junho, quando a ova ganha o protagonismo e a lógica de preço vira outra.

Para quem pesca, o recado dos órgãos de controle é o de sempre: nota fiscal, mapa de bordo em dia, respeito às áreas de exclusão da pesca artesanal. A fiscalização promete presença maior neste ano, com apoio de monitoramento por satélite na frota de cerco.

Uma observação de quem já esteve do outro lado

Passei vinte e dois anos embarcado antes de trocar o convés pela coluna, e aprendi que safra boa tem um perigo próprio: a pressa. Quando o peixe aparece, todo mundo quer dobrar a viagem, esticar a rede, sair com mau tempo. É em ano de fartura que acontecem os acidentes que a gente lamenta em ano de escassez.

Que a tainha venha farta. Que os botos de Laguna continuem dando o sinal. E que cada barco que sair pela barra volte com o convés cheio e a tripulação inteira — nessa ordem de importância, aliás, não: na ordem inversa.