Porto de Itajaí prepara maior reforma de berços em duas décadas
Obra deve durar dezoito meses, remaneja parte das atracações para Navegantes e reacende uma disputa antiga entre a pesca e o contêiner pelo espaço do cais público.
A confirmação saiu numa reunião fechada na superintendência, mas no cais todo mundo já sabia: os berços 1 e 2 do porto de Itajaí entram em obra no segundo semestre, na maior intervenção estrutural desde a reconstrução que se seguiu à enchente de 2008. A informação foi confirmada à reportagem por três fontes que participaram do encontro e, posteriormente, pela assessoria da autoridade portuária.
O pacote inclui o reforço das estacas de fundação, a substituição das defensas — aqueles amortecedores que ficam entre o casco e o concreto — e a dragagem do berço a uma profundidade que permita receber navios de maior calado. Orçamento estimado: cifra na casa das centenas de milhões de reais, financiada em modelo misto que ainda depende de aval em Brasília.
Dezoito meses de obra. É muito tempo para um cais que não para nunca.
Para onde vai a carga
Durante a intervenção, parte das atracações migra para o terminal de Navegantes, na margem oposta do rio Itajaí-Açu, e para São Francisco do Sul, mais ao norte. A logística parece simples no papel. Na prática, cada navio remanejado significa caminhões mudando de rota, janelas de agendamento refeitas e custos que alguém — armador, exportador ou consumidor — vai pagar.
Um despachante aduaneiro que trabalha há vinte anos na região resumiu o clima ao telefone: "Todo mundo apoia a obra. Ninguém quer estar na fila no dia em que ela começar."
"Cais parado é dinheiro parado. A pergunta não é se a reforma é necessária — é. A pergunta é quem segura o prejuízo dos dezoito meses."
A frase, de um operador portuário que pediu reserva por negociar contratos com a superintendência, resume o impasse que a reportagem ouviu em quase todas as conversas.
A pesca quer o espaço de volta
Há ainda um terceiro personagem nessa história, e ele costuma ser esquecido nos comunicados oficiais: a frota pesqueira. Itajaí e Navegantes formam o maior polo pesqueiro industrial do país, e os barcos disputam o mesmo rio com os navios de contêiner. Com berços fechados, a pressão sobre os trapiches e estaleiros da margem aumenta.
O sindicato dos armadores de pesca já protocolou ofício pedindo que a autoridade portuária garanta áreas de atracação para a frota durante a obra. "Quando falta espaço, quem sai primeiro é sempre o barco de pesca", disse à reportagem o presidente da entidade. A superintendência respondeu, por nota, que "todas as operações serão contempladas no plano de remanejamento" — sem detalhar como.
O que a experiência ensina
Quem acompanha o porto há décadas lembra que Itajaí já passou por provações piores. A enchente de 2008 destruiu boa parte do cais e, na época, houve quem decretasse o fim do porto. Não acabou: reconstruiu-se, modernizou-se, e a cidade seguiu vivendo do rio.
A reforma dos berços é aposta parecida, em escala menor: sacrificar um ano e meio de conveniência em troca de mais vinte anos de operação. Resta saber se a paciência — do exportador, do caminhoneiro, do pescador — dura os dezoito meses do cronograma. Cronogramas de obra pública, como as marés, têm lá suas surpresas.
Nota da redação (28/06): a superintendência informou, após a publicação, que o edital da primeira fase deve sair até setembro. O texto foi atualizado para incluir a resposta do sindicato dos armadores.